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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Adolescência

(Luis Fernando Veríssimo)
[...] o Jander tinha 14 anos, a cara cheia de espinhas e, como se não bastasse isso, inventou de estudar violino.— Violino?! — horrorizou-se a família.
— É.
— Mas Jander...
— Olha que eu tenho um ataque.
Sempre que era contrariado, o Jander se atirava no chão e começava a espernear. Compraram um violino para ele.
O Jander dedicou-se obsessivamente. Ensaiava dia e noite.
Trancava-se no quarto para ensaiar.
Mas o som do violino atravessava portas e paredes. O som do violino se espalhava pela vizinhança.
Um dia a porta do quarto de Jander se abriu e entrou uma moça com um copo de leite.
— Quié? — disse o Jander, antipático como sempre.
— Sua mãe disse que é pra você tomar este leite. Você quase não jantou.
— Quem é você?
— A nova empregada.
Seu nome era Vandirene. Na quadra de ensaios da escola era conhecida como “Vandeca Furacão”. Ela botou o copo de leite sobre a mesa de cabeceira, mas não saiu do quarto. Disse:
— Bonito, seu violino.
E depois:
— Me mostra como se segura?
Depois a vizinhança suspirou aliviada. Não se ouviu mais o som do violino aquela noite.
O pai de Jander reuniu-se com os vizinhos.
— Parece que deu certo.
— É.
— Não vão esquecer o nosso trato.
— Pode deixar.
No fim do mês todos se cotizaram para pagar o salário de Vandirene. A mãe do Jander não ficou muito contente. Pobre do menino. Tão moço. Mas era a Vandirene ou o violino.
— E outra coisa — argumentou o pai do Jander. — Vai curar as espinhas.

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