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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Conspiração – Moacyr Scliar

Sempre que faltava um professor, dona Marta o substituía. Lecionava canto; a disciplina era considerada de importância secundaria e alem disso suas aulas eram péssimas – mas, em compensação, ela estava sempre disponível. De manhã, de tarde, de noite. Morava no colégio, praticamente. Quando chegávamos, pela manhã, já estava sentada na sala dos professores, sempre com aquele sorriso meio sofrido, meio idiota; e ficava na escola mesmo depois que saiam os últimos alunos do noturno. Esperava um irmão que vinha buscá-la; como ninguém nunca tinha visto esse irmão, circulava a historia de que ela dormia no sótão do colégio. Que comia lá dentro, era certo. Ao meio-dia is para um banco, no pátio, tirava de sua sacola um sanduíche e ficava mastigando, melancólica.
Um dia não veio a professora de português. Trouxeram dona Marta. Entrou na sala de aula, no seu andar vacilante, cumprimentou-nos, pediu desculpas pela ausência da colega. E anunciou que não nos faria cantar: estava rouca (coisa difícil de comprovar; sua voz tinha normalmente um timbre enrouquecido. O que era motivo de deboche: Goela Enferrujada, era seu apelido. Que ela ignorava, ou fingia ignorar).
— Vamos fazer uma coisa diferente – disse. Tentou assumir um ar misterioso, cúmplice: — Vamos fazer de conta que estamos na aula de português, certo? Quero que vocês escrevam uma composição. Sobre qualquer tema, à escolha de vocês. Depois escolherei cinco alunos, ao acaso; lerão suas composições e o melhor ganhará um prêmio.
Fez uma pausa e acrescentou:
— Aqui está.
Tirou da bolsa um chocolate. Uma barra de chocolate ordinário, pequena. E aquela barra ela segurou no ar pelo menos um minuto, sorrindo, feliz.
O nosso era colégio de filhos de gente rica. Chocolate, bombons, balas, tínhamos todo dia, a qualquer hora. Chocolate? Ouvi risinhos de mofa. Mas nesse momento o diretor apareceu à porta e lançou um olhar severo. Pusemo-nos imediatamente a trabalhar.
Eu tinha certeza de que não seria escolhido para ler. Nunca era escolhido para nada, e nem queria. Isso, e mais o fato de que na época andava lendo muito livro de mistério, talvez explicasse o titulo de minha composição, “Conspiração contra os cegos”. Nela, eu descrevia um distante país governado por uma casta de cegos; rei cego, ministros cegos, generais cegos, todos oprimindo cruelmente o povo. Que não podia se revoltar, e nem sequer conspirar: os ouvidos aguçadíssimos dos cegos captavam qualquer murmúrio de descontentamento. Mesmo assim, líderes solutos conseguiam organizar uma conspiração, baseada só na palavra escrita. Livros eram publicados contra os cegos, revista, jornais. Toda a articulação anticegos era feita por escrito. Finalmente a oligarquia era derrubada e um novo rei assumia. Seus primeiros atos: destruir as impressoras, fechar os jornais e declarar ilegal a alfabetização.
Terminei a composição e fiquei quieto, aguardando. Os outros iam terminando também. Prontos?, perguntou ela. Todos responderam que sim. Menos eu. Fiquei quieto. E, contudo, foi para mim (muito azar!) que ela apontou seu dedo vacilante.
— Você.. Como é o seu nome?
— Oscar – respondi (mentira; meu nome é Francisco Pedro; alguns risinhos abafados se ouviram, mas eu fiquei firme).
— Bonito nome – ela, sorridente. – Leia sua composição para nós, Oscar.
Não havia como escapar. Dei uma olhada na folha de papel e, depois de uma pequena hesitação, anunciei:
— Escrevi sobre um passei no campo.
Ela sorria, aprovadora. Contei então sobre um passeio no campo. Descrevi a paisagem: as arvores, os riachos, as vacas pastando sob um céu muito azul. Conclui dizendo que um passeio no campo nos ensinava a amar a natureza.
Muito bonito, ela disse, quando terminei. E acrescentou, emocionada:
— Eu gostaria de guardar sua composição.
Não vale a pena, eu disse. Mas eu quero, insistiu ela. Não vale a pena, repeti. Ela riu: ora, Oscar, não seja modesto, me dê sua composição.
— A composição é minha – eu disse – e faço com ela o que quero. Esta aula era para ser de canto, não de português. A senhora não tem o direito de me exigir nada.
— Vou pedir pela ultima vez – disse ela, e sua voz agora tremia. – Quero sua composição. Por favor.
Peguei a folha de papel e rasguei-a, em meio a um silencio sepulcral.
Não disse nada, mas todos podiam ver as lágrimas correndo-lhe pelo rosto. O que me surpreendeu: eu não sabia, naquela época, que os cegos podem chorar.

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